quarta-feira, junho 14

Ser Mãe no Limite

Vejo-te dormir, assim, aparentemente tranquilo, mas ainda não consegui desligar o botão, o que desconhecemos que existe em nós até o termos que dar uso. Aquele que deixa uma mãe em alerta total, um furacão , um vulcão, um tornado, uma autêntica força da natureza. Chamo-lhe botão porque foi assim que o senti a ligar de um momento para o outro, mal te deitámos e todos já sabíamos o que se iria passar naquela sala, menos tu. Com o olhar ingênuo, confuso e perdido. Eu estava ali, a dar-te a mão sempre, mas o teu olhar petrificou-me, congelou cada célula de tranquilidade existente em mim. O teu apelo não era correspondido da forma que querias, eu falhei-te, eu não te podia dar colo, não te podia amparar com o meu corpo, só te podia falar, olhar, tentar fazer sorrir. Senti-me a entrar numa redoma de medo, de culpa, sem chão. Estávamos os dois, assustados, ansiosos, perdidos. Os dois, agarrados um ao outro, era só isto que eu queria, fugir contigo dali e levar-te à praia, ver-te sorrir e ser feliz, como sempre. Tentei-te dizer isto no olhar e nos sorrisos forçados, mas tu vês mais além, como sempre, vês muito além e sabes. 

Voltou tudo em mim, em força, com tudo o que reprimi daquela vez, tão pequenino, acabado de nascer e confrontados com o desconhecido mais temido, aquele que ninguém quer conhecer. A saúde e as suas entrelinhas, tão complexas e desiguais. Há momentos em que percebemos o nosso limite, enquanto mães. Em que percebemos de verdade, palpável, a força e poder que tem este sentimento. Ser mãe em momentos limite é ter uma vontade aflitiva e urgente de trocarmos de lugar com eles, de sofrermos por eles, de fugirmos com eles, como uma leoa leva a sua cria entre os dentes pela savana fora.

Ser mãe em momentos limite é ter um in/out de momentos racionais e momentos de pura fantasia. Sabemos que são procedimentos para o bem deles, mas queremos que parem, que os deixem em paz, que nos libertem daquilo e digam que já passou e não é preciso mais.


Enquanto te vejo dormir, seguro, no meu peito, lembro-me de novo tudo aquilo que passamos pela primeira vez, mas sei agora que nem isso me preparou para o teu olhar hoje. O que nunca irei esquecer. Um olhar que não se descreve, sente-se e que não se deseja mais sentir. Agora já estás crescido, já conheces mais o Mundo e o teu olhar foi reflexo de tudo aquilo que não queria. Na primeira vez sofremos, mas tu não sabias. Só sabias que nos tinhas ali contigo. Mamavas, dormias e sorrias para nós. Agora sei que sabes, mesmo que não saibas o porquê e até é tão pior não saberes. Sentes medo e mostras no olhar. Corrói-nos esse olhar.

Penso nas mães que o sentem, tantas vezes e por motivos bem mais reais. Penso que ser-se estas mães é ser-se uma força maior que qualquer força. Sinto orgulho nelas, porque sei que hoje eu chorei e sabia que não passava disto e que não é o pior, nem de perto - felizmente. Mas é impossível equiparar dor nestes momentos. Sentimos e pronto. Uma dor que não se sente de outra forma, que queremos fechar numa caixinha e mandá-la corrente fora. 

Enquanto dormes, finalmente tranquilo, e enquanto escrevo finalmente liberto. E acredito que te vais esquecer. Que ainda és pequenino. Que já passou, tal como te sussurro ao ouvido tantas vezes. Que é para ter bem, para fecharmos finalmente este capítulo e para seguirmos em frente sem nunca mais olharmos para trás. Peço-te em silêncio que me perdoes, que entendas, que aquele olhar não se repita. Que saibas que não te conseguir fazer parar de chorar me desfaz, mas que estive sempre ali e estarei sempre.
Escrevo para ti, para mim e para todas as mães, especialmente as mães que o são, tantas vezes, no limite. Dizer que vos admiro é pouco. Sou completamente rendida a estas mães que o são e que o são de sorriso nos lábios e voz doce. Têm uma luz que vos faz serem assim, especiais. Nunca deixem de acreditar nessa luz e sejam sempre o seu reflexo em vós.



Aqui com 3 mesinhos ❥
Mafalda

Mais em:
       
O Martim nasceu e com 1 mês de vida e 1 mês e meio teve duas infecções urinárias respectivamente. Ficamos internados e graças ao sintoma de febre muito alta, foi detectado a tempo e cumprido o seu tratamento. Foi detectada uma pequena mal formação no divertículo (que nasceu com ele e não foi vista nas ecografias) e desde então que é seguido e acompanhado pelas especialidades. Felizmente nunca mais fez infecções nem ficou com lesões renais e é um menino super saudável. No entanto, todo este processo é bastante moroso e susceptível a opiniões, exames e timmings chatos. Chegamos perto dos 2 anos e estamos finalmente a chegar a um fim. Fizemos hoje o último exame necessário para se perceber toda a dimensão do seu caso, exame este que tem algumas particularidades mais dolorosas, para não falar da parte emocional. Mas foi realizado com sucesso e agora é aguardar mais notícias, daquelas boas! :)
Decidi partilhar, não só porque escrever é um processo terapêutico para mim, mas porque sinto-me confortável em poder dar uma palavra a quem a queira e com este texto dar um miminho especial a todas as mães limite que o são tanto e mais que eu fui hoje, com um brilho imenso! Obrigada e beijinhos.

2 comentários:

  1. Adorei e senti tudo o que escreveu. Desde que o meu filho Lucas nasceu que passo por isso. Agora, já com 26 meses ainda vai regularmente ao bloco para ser observado. Já fez 2 intervenções em cada olho e ainda virão mais porque ele está a crescer. Mas mesmo quando vai apenas ser observado, fico com o coração nas mãos porque nunca sei o que nos vão dizer. A verdade é que eles são uns guerreiros e fazem de nós verdadeiras lutadoras, leoas... Muita força e um beijinho para todos!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Muito obrigada pelas palavras Beta!
      O nosso coração apesar de ficar assim.. pequenino.. é do tamanho do Universo e reeiventa-se a cada dia! Muitos beijinhos e tudo a correr bem! 🙏🏻❤️

      Eliminar