quinta-feira, junho 1

Minha amiga culpa

Culpa, minha amiga culpa. Assim te trato pois já nós conhecemos bem, demasiado bem. Fomos sabendo da existência uma da outra ao longo do tempo, mas oficialmente apresentadas no dia do nascimento do meu filho. Do nosso filho. (Houveram vezes em que acredito que ele foi mais teu do que meu).
Escrevo-te para te pedir se podemos tentar ser amigas? Tréguas? Até porque, já te protestei tanto que agora mais vale aceitar-te, convidar-te a fazeres parte do festim de sentimentos que é gerido por um coração mole de mãe. Se ficares aqui, bem integrada e feliz, pode ser que vás, aos poucos, passando a ser um bocadinho de outra coisa, não tão corrosiva vá , o que achas? É que isto não nos faz bem. Tu deixas-me mal e eu deposito em ti todo o meu desgosto. Façamos um pacto. Eu aceito-te. Dou-te valor até ao ponto que vir que és importante e útil. A partir daí tu sais de cena e deixas os teus parceiros de viagem fazerem o resto. 
(Desabafos num espaço escuro)


Há dias que o cansaço vence e corrompe a mãe que costumamos ser. A paciência cede com ele e o pensamento consciente e ponderado dá espaço ao simples impulso de querer espaço e tempo para o voltar a ter.
Fecho os olhos e tento chamá-lo, mas nem sempre ele vem. Por vezes só com ele enroscado em mim depois de uma espécie de luta sem lados, consigo fitar o olhar no escuro e encontrar-me outra vez. E é aí que a culpa vem. Essa malvada. O sentimento mais estapafúrdio, insensível, frio, inconsolável da maternidade.
Qual o nexo dela existir, se não apenas para nos desacreditar em nós mesmas? Que batalha essa que temos que travar. 
Mas se por um lado essa culpa existir para nos fazer refletir, refinar, estruturar, que venha ela! Porque quase sempre é na culpa que mudamos algo em nós ou na forma de agir , ser, ver e quase sempre, para melhor. 
É através da culpa que enxergamos melhor aquilo que não queremos voltar a ser ou fazer. É uma luz que pisca intermitente no nosso coração a relembrar os nossos limites. A nossa linha desafiadora. Não é fácil olhar para a culpa como uma coisa boa, é uma constante aprendizagem, mas dá para refletir nela. Tentar ver o lado bom nela, passa por desafia-la, tal como ela nos desafia. Se estou a senti-la, vou enfrenta-la, para a perder de vez. Será possível? Ou será que ela existe mesmo numa forma desenhada no universo de ser mãe , como um instinto animal, um know-how inconsciente daquilo que já sabemos mesmo julgando não saber?



... vamos tentar ser amigas?

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